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Educação: não existe apenas um jeito de se fazer as coisas, diz Peter Moss

@Fonte: Nova Escola

Quarta, 29 de agosto de 2018

Como se mede o encanto de uma criança? “Não se mede, documenta-se de forma ampla”, afirma Peter Moss, pesquisador especializado em Educação Infantil. O britânico está no Brasil junto de representantes da rede de Educação Infantil de Reggio Emilia, cidade italiana considerada modelo para o ensino de primeira infância, para participar de encontro da Fundação Antonio-Antonieta Cintra Gordinho, em Jundiaí (SP).

Em entrevista, o professor da University College London lembra de algumas histórias de Loris Malaguzzi (1920-1994), educador italiano e um dos líderes da rede de Reggio Emilia. “Malaguzzi perguntava aos seus professores: ‘O que te encantou hoje?’. Esse encanto nos deixa mais humildes também porque deveríamos ter mais fé nas crianças”, afirma Moss, que escreveu o livro “Loris Malaguzzi e as Escolas de Reggio Emilia: Uma seleção de escritos e palestras, 1945-1993”, ainda não traduzido no Brasil.

Confira trechos da conversa que destacam conceitos como experimentação, documentação pedagógica e Educação democrática, além de críticas a avaliações para alunos de 5 anos de idade, como a do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) para a primeira infância.

Reggio Emilia
Para mim, o caso de Reggio Emilia está ligado à epistemologia, o significado do conhecimento e de como sabemos das coisas. É uma ideia filosófica e política de educação. Se perguntasse a eles sobre seus princípios políticos, eles diriam democracia, cooperação, pesquisa e experimentação, incerteza e encanto.

Inovação
O que aprendi com eles é que eles são bem-sucedidos em inovar. Criaram um sistema de 50 escolas que já dura 60 anos. A tradição de Educação progressiva [também conhecida como Escola Ativa ou Escola Nova] que eles têm é incomparável. Existem muitos motivos para esse sucesso: um deles é que a prática é intensa. Um exemplo com a administração da escola é a integração de todo o sistema de Educação de 0 a 6 anos. Não de 0 a 3 e depois de 3 a 6 anos. É um único sistema e não importa muito a idade dos alunos. Outro exemplo é o desenvolvimento de um sistema de suporte para as escolas. São pedagogos trabalhando em grupos de escolas para aprofundar a prática e o entendimento, para conectar a escola e a cidade. Isso foi construído em 30 anos, é absolutamente central ao que eles fazem. Não dizem: "Vá lá, faça um workshop nisso ou aquilo". Um terceiro exemplo seria de como eles fazem formação continuada. É a ideia de que você vai precisar muito de seus professores e eles precisam de suporte, espaço e oportunidades para realizar o que é pedido. Basicamente, eles destinam recursos disponíveis para a formação continuada, mas também realizam um "aggiornamento", uma reunião dos professores para discutir novas ideias, compartilhar experiências.

Loris Malaguzzi
O trabalho de Malaguzzi é muito importante, mas não muito [apreciado] fora da Itália. Ele falava com professores ou assistentes [da mesma forma]. Para ele, era muito claro que não deve existir hierarquia. Todos precisam ser parte da docência e realizar um trabalho cooperativo. Ao pensar num tema específico para o ano letivo, por exemplo, todos os envolvidos ficam um dia ou dois para debater as questões. As pessoas que conheceram Malaguzzi lembram vividamente dele, de como falava sobre o que estava lendo, as novas teorias e suas complexidades. Depois perguntava o que fazer com isso e que projetos poderiam ser feitos. Ele retoma a ideia de experimentação. Acho [importante] o fato de ter pessoas, processos e estruturas que são muito fortes e cooperativas, trabalhando com ideias muito complexas e exigentes. Não é só dizer: "Vá lá, no próximo ano você nos conta como foi [a experiência]".

Educação Integral
A Educação deve ser feita de forma integral. Não faz sentido trabalhar o lado cognitivo sem olhar para outras facetas. Malaguzzi não usa a palavra "habilidades", não reduz esse processo a uma linguagem instrumental e busca uma Educação que conduza a uma boa vida.

Visões opostas
É um processo de tornar coisas visíveis de várias formas. Depois disso, resta saber o que fazer com isso: integrar as pessoas para dar significado ao processo. Você precisa de muitas pessoas que pensam diferente, e isso precisa ser parte do processo. Elas devem saber comunicar como interpretaram a documentação e serem confrontadas por pessoas de visões opostas. Isso permite o diálogo, que pode gerar consenso ou dissenso. Mas esse é o processo democrático, essa possibilidade de negociação.

Pesquisar e compartilhar
Malaguzzi tinha ferramentas para ajudar os professores a pesquisar. E um dos pontos importantes para pesquisar é a documentação pedagógica [um dos temas do encontro no Brasil]. Algumas ideias são muito simples quando você pensa sobre isso. Você precisa registrar o que está acontecendo em várias formas: pesquisar, experimentar e se desenvolver profissionalmente. Tem que ser [um processo] compartilhável e concreto. Não podem ser apenas teorias. "O que achamos que está acontecendo aqui?".